Entre os próprios engenheiros, as falácias de que os memos tem uma visão abrangente, são treinados para resolver problemas sejam quais forem, encerram questões e o auto-convencimento narcísico impera, e é instituido um senso comum de classe.
Assim como em diversas outras classes privilegiadas, este senso comum tem sua parcela de responsabilidade em manter uma ordem estabelecida, ou seja, engenheiro contrata engenheiro para seguir a linha de comando, mas esse fator não explica porque outras classes de profissionais não poderiam ser a classe privilegiada, e fazer o mesmo.
Uma análise profunda da questão deveria passar por uma reconstrução histórica, que seria um bom tema para um livro, não para um blog.
Para responder a pergunta de uma forma mais objetiva, segue uma listagem de atributos que uma boa formação em engenharia fornece:
- Capacidade de abstração lógico-racional: através da matemática e da física pesada, aliadas ao método científico cartesiano e ao reducionismo analítico, base do conhecimento da área de exatas.
- Praticidade: engenheiros enxergam o mundo através de problemas e soluções.
- Metodologia: se existem métodos para resolução de um problema, engenheiros sabem utilizá-los da maneira correta, e analisar os resultados também de maneira correta, de acordo com o método.
Esses atributos por si só já se contrapõem à visão narcísica do engenheiro "generalista". Ainda mais considerando o dinamismo e a complexidade de uma empresa e, principalmente, do fator humano envolvido na gerência.
Agora chega o momento em que um engenheiro formado, com todos estes atributos, é inserido no contexto social. Em geral vão para as instituições cujo objetivo é ganhar dinheiro.... Não, engenheiros não vão trabalhar em ONG's ou em projetos assistenciais. Não são estes os ramos em que os engenheiros se destacam, engenheiros são fontes de receita muito importantes e valorizadas para escolherem estes destinos. Mesmo seguindo carreira acadêmica, os engenheiros são assediados constantemente pelo mercado, e podem fazer associações, lícitas ou ilícitas com empresas interessadas.
Assim, os engenheiros se lançam no mercado, trabalham exaustivamente e são bem recompensados por isso. Em geral há uma boa relação instituição-indivíduo, o que remete automaticamente a uma boa relação sistema-indivíduo, ou seja, o engenheiro, que provavelmente nunca teve oportunidade de questionar profundamente problemas estruturais do modus operandi social, se vê bem integrado a ele, e colhe frutos muitas vezes superiores a outras classes de trabalhadores.
Agora, somando os atributos que compõe a formação básica da engenharia, com essa integração modus operandi-indivíduo, e analisando do ponto de vista captalista empresarial, temos uma camada de gerência bastante confiável, uma massa de manobra especializada em gerir da forma "correta", ou seja, temos multiplicadores de receita.
Através de um processo de formação focado na racionalidade e no esforço individual, com uma consciência de classe muito abaixo de outras formações e com um arsenal de metodologias, sistemas de controle e previsibilidade, os engenheiros se tornam importantes elementos de ligação entre as metas institucionais(lucro) e seus trabalhadores (recentemente promovidos a colaboradores), incluindo manter desigual a distribuição de resultados dentro da instituição, o que, dentro do contexto atual, é indispensável para seu sucesso competitivo.
Falar em coerção aqui seria um termo leve demais, há sim um alinhamento de interesses, seja explícito ou inconsciente. O engenheiro, assim como acontece com outras classes privilegiadas de trabalhadores (jornalistas da globo, por exemplo), se alinham com o modus operandi, obtêm regalias, e tedem a propagar o pensamento vigente dos núcleos de poder. Não é a toa que os engenheiros são, em geral, neoliberais.
Os engenheiros correm atrás de cursos de gerência. MBA's, cursos de administração para graduados, cursos de especialização em gestão de projetos, e outros que objetivam o lucro das instituições são os próximos passos. Lá aprendem métodos de aumento de produtividade que tiram de letra. Nas empresas, os engenheiros são, assim como todos os profissionais que são elementos de ligação entre as metas institucionais e a massa humana da empresa, uma espécie de objetivo dos menos privilegiados, porta-vozes de que o modus operandi liberal funciona. Jargões como "é trabalhando que se chega lá", "você não conseguiu porque não se esforçou o suficiente", que são comuns no mundo coorporativo se apóiam sobre estes personagens, que são ótimos silenciadores de pensamentos dissidentes e incentivadores institucionais de produtividade.
Assim como diversas outras classes sociais no curso da história que serviram de elementos de ligação entre os centros de poder e a parte menos favorecida da popupação, os engenheiros permanecem nesse meio de campo, de uma forma bem mais sutil que a historicamente utilizada, propagandeando a ideologia liberal para os outros trabalhadores e obtendo regalias para tanto, em prol dos interesses empresariais.
*Obs: este é um texto reducionista, pois seu objetivo foi de um ensaio analítico da condição de uma classe sobre um prisma específico, o da manutenção de estruturas de poder. É uma tentativa de análise anarquista, em que desmascarar o poder e suas infinitas formas implícitas e explícitas de coerção são as preocupações centrais.
Nenhum comentário:
Postar um comentário